domingo, 22 de outubro de 2017

Aos domingos

Desperto assustado
Num sol que invade meu rosto
A boca cheia de sal
O peito cheio de nós

Queria mesmo era repousar nessa areia
Respirar com as algas
Me iludir com a sereia

Com esse meu pensamento revolto
Com essa minha onda que engole
Afasto os banhistas

Pudera eu ser rio
Pra adoçar tua boca
Irrigaria todas suas plantas
Nutriria todas suas flores

Sei que a onda é ser pacífico
Mas meus tempos são de maremoto
Meus peixes já sentem as dores das espinhas
E ainda tenho muito gelo a derreter

Vedes essa minha força explosiva?
Em pouco tempo vira espuma
Navego todo dia de ressaca
Enfrento mil rochas por segundo

Ando me distraindo com os piratas
Continuarei afundando titanics
Me simpatizo com barcos solitários
Embora também admire os surfistas

Peço-lhes apenas que salvem as baleias
É dentro delas que me escondo aos domingos.

(Marcus P. M. Matias)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Explodirá




E se fosse possível que eu provasse todos sabores
E voasse por todos os céus
Rabiscasse em todas paredes
Desfrutasse de todos prazeres
E então dominasse todas as línguas e dialetos?

E seu andasse por todos os lados
Medisse cada milímetro
Cantasse todos os cantos
Conversasse com todos estranhos
E finalmente penetrasse todas entranhas?

Se por acaso eu lesse todos os livros
Confessasse todas as fés
Me embreagasse em todos butecos
Mergulhasse em todos oceanos
E incrivelmente estivesse presente em tudo que se apresenta?

Ainda desejaria mais.
E por não ter mais nada a buscar, me explodiria feito bomba nuclear.
E torceria pros meus eus revigorarem em novos eus desesperimentados.
Já aproveito agora e deixo aqui registrado:
Todo sentido que se dá à vida explodirá no espaço.

(Marcus P. M. Matias)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Nós poetas

Nós homens,
Paridos para manter a busca pelo inalcançável.
Sofridos guris.
Que tão cedo neste mundo,
Já lhes retiram as tetas que mamavam.
Pobres coitados!

E essas crianças,
Que não tarda e já lhes retiram do barro com seus pés descalços.
E botam na frente das telinhas:
O homem que voa, o menino que não envelhece,
Ao infinito e além, para todo sempre.
Pobres diabos!

E esses jovens
- Perdidos entre o caos e a ordem -
Nesse tesão inesgotável e tão reprimido.
Se antes cuspia e gozava na cara da verdade,
Hoje cortam suas pulsões pelas raízes sanguíneas.
Pobres cortados!

E esses maduros,
Que se dizem prontos pra vida.
Já são capazes de esconder seus temores
Em seus discursos políticos, utopias, ansiolíticos ou cursos superiores.
Só não percebem que as rugas em tuas cascas não negam, mas revelam o fim do seu doce.
Podres maduros!

E esses velhos - salvo os gagás -
Que sufocam as novas vidas com sua amargura transvestida de sabedoria e razão,
E acordam às 6 procurando culpados,
E dormem às 6 pensando serem eles mesmos os culpados da suposta podridão.
Te ensinarão mil e uma maneiras para se viver, nenhuma para morrer.
Velhos cagões!

E esses poetas,
Que na calada da noite - Enquanto dormem coitados, diabos, cortados, podres e cagões -
Condensando em seus versos os resultados das relações diárias das contradições,
Pensam que estarão livres das disputas das forças em questão.
Ilusão presenteada pela complexidade dos afetos, mas que se apaga noutro dia numa nova e velha missão:
De serem atravessados por todos e na nova calada da noite reunir novamente as novas dores deste mundão.

Eu poeta, coitado, diabo, cortado, podre e cagão!

(Marcus P. M. Matias)

terça-feira, 18 de abril de 2017

É preciso!



É preciso de paz pra absorver o impacto.
Recolher o que sobrou e poder chorar o leite derramado.

É preciso de paz pra engolir o sapo.
Reconhecer onde errou e deixar isso de lado.

É preciso de paz pra olhar de fora.
Se colocar como um diretor na gravação pra ver se ainda dá pra mudar o rumo dessa história.

É preciso de paz pra respeitar o tempo.
Esse senhor que vive apressado, mas que agora precisa passar lento.

É preciso de paz pra revigorar.
Abrir os olhos, respirar bem fundo até o peito estufar.

É preciso de paz pra sonhar.
Esquecer os velhos is pra botar os pingos n'outro lugar.

É preciso de paz pra planejar.
Caminhando, observando e calculando, feito um leão faminto, já de olho em outra jugular.

É preciso de paz pra saber o momento certo.
O momento em que a vida clama pela ação. Já não dá mais pra hesitar.

É preciso de paz pra guerrear.

(Marcus P. M. Matias)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Egológica


Depois do fuzuê só sobrou você
De batom apagado
Toda Despida
Aquilo tudo já é passado

Se encaixa no fluxo
De volta pro prumo
Cai na folia
De olhares cruzados
De abraços encaixados
De beijos desconhecidos
E gozo bendito

Mas agora só sobrou você

Vêm, escuta esse som
Requebra o quadril
Joga o sorriso na cara
Saí desse teu mundo hostil
Mostra logo esse teu poderio
Escondido debaixo da saia

Mas agora só sobrou você

Que te chupem, apertem e enrosquem
Mas que não lhe toquem
Que lhe implorem, mintam e esnobem
Mas que não te sufoquem

Ego ísta?
Ego cêntrica?
Egológica.

(Marcus P. M. Matias)

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tô indo e você?



O ônibus já está partindo
mas ele que me espere
penso me equilibrando no meio fio.
Perdi o busão.

No hortifrúti tudo correto
até que sinto a promoção:
Hoje só fruta sem doce.
Deixei as sacolas no chão.

Na terapia que tudo acontece
Seja por Freud, Buda ou pelo Deus Cristão.
Talvez a astrologia explique.
Foi só silêncio mermão.

E é no banho que eu me lavo
me destruo e me refaço
Mas é passeando com a cadelinha que me vem a sensação:
Queria eu ter assim, um dia de cão.

Tô indo, e você?

(Marcus P. M. Matias)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

É porque é

É o que nos fez chegar
da Pré História
até o agora.

É o que agita os oceanos,
cria nossos pesadelos
e promove a arte.

É o que alimentou a chama
do chá que eu preparei
e levei na tua cama.

É o que uni os átomos
e depois separa
só pra mostrar quem manda na parada.

É o que transformou água em vinho,
abriu mares e encheu os nossos peitos,
mas agora é o que te deixa assim,
há dias sem levantar do leito.

É o que te trouxe até aqui.
É o que um dia te levará.
É uma loucura, um paradoxo, uma incógnita,
não sei.

Só sei que é o que mantêm
esse vai e vem
entre eu e você.

(Marcus P. M. Matias)